a assombração.

dezembro 13, 2008

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A Fronteira da Alvorada (Philippe Garrel, 2008) nos apresenta seu personagem, François (Louis Garrel), envolto pela presença fantasmagórica de uma mulher (Laura Smet) que amou e que perdeu. As aparições  da mulher começam a tomar conta de sua vida e anunciar sua morte. François conheceu uma outra menina, se apaixonou, espera por um filho - a insistência da memória de um relacionamento traumaticamente interrompido, no entanto, parecem convidar o personagem para um retiro do presente. O que impressiona em A Fronteira da Alvorada é que o pathos do personagem em alguma medida se aproxima do pathos do seu autor. O que une Garrel a François é o fantasma de um musa que se perdeu no tempo, mas que parece se presentificar na sua vida: para o cineasta, a musa é o cinema francês dos anos 60.

Não me interessa aqui esmiuçar o cinema de Garrel como sintoma da dominante nostálgica da cultura contemporânea, nem procurar desenvolver uma possível crítica política dessa nostalgia (embora acredite que esses caminhos sejam possíveis), mas apenas partir da idéia de que A Fronteira da Alvorada se constrói na esteira de uma obsessão por uma imagem do passado. O susto que temos quando o ano de 2007 aparece escrito em uma lápide em um cemitério parece apontar o deslocamento que o filme possui no presente: a nostalgia não se encontra apenas no timbre do filme, mas sobretudo na imprecisão temporal da narrativa, que parece oferecer indícios confusos de que década estamos  – seja nas conversas, nos objetos de cena ou no entorno da história. A própria visão de mundo destilada no filme parece apenas fazer sentido em função de uma atmosfera fora do tempo e do espaço: um elogio ao amor louco como gesto antes de tudo político, anti-burguês, romântico.

Pensar em um susposto regressimo, aprisionamento ou um tentativa de buscar no passado a aura perdida no presente, no entanto, pode vir a empobrecer a experiência que se tem diante de um filme de Garrel. A Fronteira da Alvorada pode ser pensando como a própria aparição do fantasma da personagem de Laura Smet - uma imagem a um só tempo anacrônica, assustadora e doce. O sentimento que temos, na verdade, é de estar diante de uma obra cheia de frescor e não de uma obra engessada, envelhecida ou obsoleta como certas gargalhadinhas cretinas na sessão poderiam sugerir. Minha relação com esse filme – como também com Amantes Constantes e Nascimento do Amor – não poderia se dar em outra palavra que não seja encantamento: encantamento com seus pedaços desgarrados de matéria – luz, grãos, ruídos, momentos de intimidade na cama, conversas sussuradas em um quarto, um choro dolorido no banheiro, toda a beleza e mistério de um rosto. Sentimento em estado bruto.

Podemos encontrar na própria seqüência final do filme  a chave para entender o lugar do seu cinema. As aparições da personagem de Laura Smet crescem e se expandem até quebrar por completo a possibilidade de François se reatar com o presente. Para François, como também para Garrel, resta apenas a entrega total à imagem de sua musa perdida. Para o personagem, o caminho é o suicídio – em três planos de uma intensidade absurda, vemos a máscara cadavérica da morte no espelho, as janelas do quarto abertas, o corpo inerte do personagem na rua, com o rastro de sangue no chão. Para o cineasta, o caminho também é um espécie de suicídio -  um retiro para o não-tempo  em que se passa seu filme. No entanto, o enlaçamento daquelas três imagens – misterioso, sereno, amargo – nos aponta, com sua beleza, como pode ainda ser enriquecedor e instigante o caminho tomado por Garrel.

2 Respostas para “a assombração.”


  1. Curiosamente esse filme tava na minha lista, porque eu tô querendo ver os filmes com o Garrel (adoro), mas não encontro esse em lugar nenhum… Você baixou??

  2. hermanocallou Diz:

    Vi no cinema, na expectativa 2009. Ainda vai estrear.


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